A crítica como estratégia de gestão da interação de cuidado. Que possíveis implicações?

Atualizado: Jun 17

Sabemos que cuidar de pessoas com dependência, pode proporcionar a experiência de pensamentos, sentimentos e atos muito positivos e com muito significado na vida do cuidador. e naturalmente da pessoa acarinhada.

Sabemos também que esta positividade nem sempre é vivida pelos cuidadores e que estes (sejam informais ou formais) estão mais expostos ao risco de passar por momentos de stress mais prolongados e eventual exaustão.

Considerei curioso partilhar esta síntese convosco, pois introduz o estudo de uma forma de comunicação em particular, na interação de cuidado e que produz efeitos não desejáveis, nem para um lado, nem para o outro desta díade! – A crítica.


Afinal de que se trata?

É numerosa a literatura que aborda a vivência de stress por parte dos que prestam cuidados a pessoas maiores que vivem com demência (PLWD).

Os autores deste estudo, pretendem focar a nossa atenção, no uso da crítica na relação de cuidado: cuidador informal - PLWD.

Entende-se a crítica como uma forma de reagir dos cuidadores, ao stress que vivenciam decorrente do ato de cuidar e também, de responder a comportamentos mais desafiantes, expressos pelas PLWDs que são alvo dos seus cuidados. Se assim é, a crítica pode ser considerada uma estratégia de gestão na interação de cuidado.


O objetivo deste estudo é então:

Avaliar se a crítica, utilizada pelo cuidador como estratégia de gestão no ato de cuidar, está associada : i) ao seu bem estar ; ii) à utilização de serviços para si próprio e para a PLWD.


Algumas sugestões de investigações anteriores:

Das diversas estratégias de coping (esforços conscientes para lidar com pressões internas e externas) que os cuidadores utilizam, aquelas que se centram na resolução de problemas (ex: envolvem a análise da situação, procura de recursos para as possíveis soluções, planificação da ação, ação, concentração…), produzem um melhor efeito que o uso de estratégias centradas nas emoções, nomeadamente o evitamento (ex: envolvem afastamento, desinvestimento afetivo, receia-se encarar o desafio).


A crítica tem vindo a ser estudada em diversos contextos e os autores, ao referirem-se ao trabalho desenvolvido por Gottman, destacam a nomeação que este lhe atribuiu enquanto conteúdo emocional trocado e transferido entre marido e mulher. Designou-a ele de “um dos cavaleiros do apocalipse” que prediz fortemente o divórcio;


Noutro campo de investigação, na relação de acompanhamento de pessoas com esquizofrenia, quando os cuidadores familiares expressam as emoções através da crítica e hostilidade, acabam por impactar negativamente a saúde da pessoa com a doença;


Em cuidadores de PLWD, parece que a expressão da emoção tem pouco impacto no declínio funcional e cognitivo dos últimos, mas encontra-se associado: a) a vivência de mais problemas psicológicos e comportamentais por parte das PLWDs; b) ao impacto negativo na saúde dos próprios cuidadores;


A utilização da crítica e raiva em particular, estão associadas ao desejo de institucionalização da PLWD e à pobreza na experiência de emoções positivas em torno do cuidado, incrementando a prática das negativas (ex: auto-culpabilização, libertação descontrolada de emoções…). A crítica, encontra-se também relacionada com a frequência e severidade dos sintomas comportamentais e psicológicos, experimentados pelas PLWD.


Os cuidadores que reportam elevados níveis de angústia e sobrecarga, são também aqueles que mais recrutam serviços de apoio (de saúde e sociais), tanto para uso próprio, como para as PLWDs de quem cuidam.


Em que acreditam os autores do estudo antes da experiência, recolha e tratamento dos dados?

Hipotetizam que o uso da crítica por parte do cuidador, está associada à redução do seu bem-estar e a um maior recurso à utilização de serviços de apoio (domiciliário, de saúde e social) para ele próprio e PLWD.


Como realizaram a investigação para responder à hipótese que formularam?

Extraíram dados de 256 cuidadores informais que cuidavam de PLWDs com estádio moderado de progressão e que em concomitância, expressaram dificuldade em lidar com comportamentos desafiantes e sintomáticos da doença.


Os cuidadores

- Identificaram, entre uma lista de mais de 23 comportamentos problemáticos experimentados por PLWDs, quais os que mais os preocupavam;


Às PLWD que eram alvo do cuidado

- Foram avaliadas as suas funções cognitivas, bem como o grau de desempenho nas atividades básicas e instrumentais da vida diária;


Mensuração da crítica

- Foi aplicada uma escala com 4 items (Eu critiquei ou repreendi o recetor do meu cuidado, por forma a fazer emergir um comportamento mais ajustado/ Ameacei o recetor do meu cuidado a consequências indesejáveis, se ele/ela não cooperasse/ Fugi de perto do recetor do meu cuidado/ Gritei ou agi de forma irritadiça; É muitas vezes a única forma de o conseguir). A cada um destes items, o cuidador, poderia atribuir valores de 1 (-), a 5(+), sendo os valores mais elevados, aqueles que refletiam um maior recurso à crítica;


Mensuração do desejo dos cuidadores em institucionalizar a PLWD

- Os cuidadores realizaram um questionário constituído por perguntas fechadas e orientadas para a sua experiência de cuidar, nos últimos 6 meses (ex: nos 6 meses anteriores, sentiu que o recetor dos seus cuidados, estaria melhor num lar?). O sentimento de frustração com a prestação do cuidado, os sintomas depressivos e a sobrecarga por parte dos cuidadores também foram medidos com escalas ajustadas ao efeito, de molde a ser possível estabelecer relações entre as variáveis em estudo;


Utilização de serviços de apoio

- Os cuidadores foram também questionados sobre os serviços de apoio utilizados para eles próprios e para a PLWD. Os serviços domiciliários referiam-se a apoio domiciliário formal, refeições, visita do enfermeiro/a, compras, limpezas,…; Os serviços sociais relacionavam-se com grupos de apoio, centros de dia, transporte,…); Os serviços de saúde, estavam balizados à experiência do cuidador nos últimos 7 meses e contemplavam a resposta sim/não à necessidade de recorrer a visitas médicas, análises clínicas, consulta de psiquiatria ou sessão de counselling, internamento hospitalar, serviços médicos privados,…);


Através de uma análise específica da estatística, conseguiu-se considerar a crítica, como sendo uma variável que prediz a sobrecarga do cuidador, sintomas depressivos, desejo de institucionalizar PLWD, nível de frustração com o cuidado e o nº de serviços utilizados, pertencendo estes a qualquer uma das 3 categorias anteriormente descritas;


Resultados e sugestões:

Em média, 15% da amostra, reporta que por vezes, utiliza a crítica para gerir desafios no ato de cuidar;


Embora uma percentagem baixa dos cuidadores nesta amostra, tenha utilizado a crítica para com a PLWD, os autores sugerem que a crítica pelos cuidadores, decorre da crença em que as PLWDs, estão no pleno controlo dos comportamentos sintomáticos da sua doença e que independentemente das razões que subjazem ao seu uso, a estratégia apresenta-se como ineficaz (e eu acrescento, ineficiente), podendo influenciar negativamente os dois lados da relação de cuidado;


Um maior uso da crítica, esteve associado:

- Com significância, a uma maior sobrecarga do cuidador e frustração no cuidado prestado. Não esteve no entanto, associado aos sintomas depressivos, ou desejo de institucionalização. A critica esteve associada à redução do bem-estar do cuidador;


- A um maior uso de serviços domiciliários e sociais, mas não, de saúde;


- Aos cuidadores com níveis mais elevados de sobrecarga e frustração;

A maior utilização de serviços pode ser encarada como positiva pois reflete o pedido de ajuda em torno do ato de cuidar e seria interessante avaliar em investigação futura, se esta maior utilização, tem influência na redução do recurso à critica (no fundo, se tem um papel pedagógico face ao cuidado).


Intervenções que abordem estratégias de gestão mais positivas e validadas, podem ajudar os cuidadores a gerir os desafios comportamentais decorrentes do ato de cuidar de uma PLWD.


Palavras chave: Problemas de comunicação; demência; cuidadores; crítica; estratégias de gestão no cuidado


Leggett A.N., Kales H.C., Gitlin L.N.(2018) Finding fault: Criticism as a care management strategy and its impact on outcomes for dementia caregivers. Int. J. Geriatr. Psychiatry 34 (4):571-577. DOI: https://doi.org/10.1002/gps.5052



  • Facebook
  • Preto Ícone Instagram
  • Preto Ícone LinkedIn
  • YouTube