A demência é uma construção cultural?

As palavras têm poder. As histórias, compostas de frases, por sua vez compostas por palavras que têm poder, influenciam-nos para o bem e para o mal, ou para nenhum destes, mas para algum lado!


Para que lado, as narrativas sobre a demência nos empurram? Será este texto ainda atual e aplicável à nossa cultura? Passando nós por uma nova experiência de vida com a Covid 19, será que algumas destas narrativas nos fazem refletir mais sobre a forma como descrevemos a demência (e outras condições)? Como estas descrições nos influenciam na interação com aqueles, onde a demência habita?


Qual a preocupação da autora?

Algumas metáforas condicionam o nosso entendimento coletivo sobre demência. Estas metáforas e narrativas, impregnam o nosso subconsciente e influenciam o modo como sentimos a demência e a forma como interagimos com aqueles que a vivem por tu.


Nesta conformidade, faz sentido analisar as narrativas sobre demência (expressas em discursos científicos, políticos, filmes, notícias, romances…) e a linguagem utilizada para as veicular.


Porquê as metáforas?

A metáfora é uma figura de estilo que compara dois conceitos improváveis, pelo que, o que nos é mais estranho ou complexo de definir, passa a ser descrito por algo que nos é familiar (ex: Podemos dizer que a expressão literária tão conhecida de um dos nossos grandes poetas, “amor é fogo que arde sem se ver”, é uma metáfora que nos ajuda a perceber o amor, como uma emoção intensa mas cuja manifestação pode estar escondida).


As metáforas também representam a forma de pensarmos e processarmos determinadas coisas da vida e, para além de simplificarem o complexo, funcionam com imagens (ex: fogo que arde), permitindo-nos aceder aos conceitos metaforizados, mais rapidamente. Por estas razões, tornam-se poderosos agentes nos processos de comunicação.


O que a investigação passada nos diz sobre a demência, como sendo um conceito construído culturalmente?

A palavra demência provém do latim, significando, sem mente. Todavia, a sua origem, não a associava a processos de envelhecimento. Atualmente, não só se encontra associada à doença de alzheimer (AD), como também, às pessoas com idades mais avançadas.


A construção sociocultural da AD e demência, emergiu no final da década de 70 e as suas descrições provocam sentimentos fortes.


Na literatura científica, a demência e AD são também conceitos difusos e a literatura médica, apresenta incertezas quanto aos factos orgânicos relacionados com as duas condições.


A demência e AD, não são facilmente definidas, pois ambas têm sido sujeitas a mudanças subtis das narrativas psiquiátricas, biomédicas e socioculturais. Isto não nega o seu cariz biológico e de doença de foro mental. Contudo, num nível conceptual, os termos estão abertos a interpretação e subordinados aos costumes da nossa cultura.


A ligação da demência, ao envelhecimento e AD, tem estado relacionada com o desenvolvimento da geriatria psiquiátrica, forças sociais, ao trabalho dos neurologistas, neuropatologistas e outras especialidades.


A demência substituiu o cancro como flagelo nos nossos tempos modernos. Os discursos científicos agudizam este sentimento de horror face à demência e AD, descrevendo-os como “crise”, “epidemia” e “praga”. Até nas referências aos seus processos biológicos, como depósitos e acumulação das proteínas amiloide e Tau, refletem a complexidade veiculada pelos cientistas, mostrando que a situação está fora de um controlo individual.


Para a maioria das pessoas, as palavras demência e AD, invocam um medo profundo.


Alguns exemplos de narrativas culturais da demência que o artigo explora:

Recorrendo a várias fontes, o artigo lista alguns exemplos das metáforas e de como a narrativa sobre a demência se constrói,:


-O perigo de “afogamento” tem vindo a ser associado à demência, para tal é referenciado um relatório do UK de 1982, intitulado “maré crescente” referindo-se ao desenvolvimento de serviços de saúde mental para as idades mais avançadas. Estas “marés” e “marés crescentes”, continuam a dar forma à linguagem dos políticos (com enfoque particular no UK);


-Outras analogias surgem, como “tsunami que se move lentamente”, a “onda” da demência…em ambos os casos, a comparação é feita com base a fenómenos naturais que não podem ser travados;


-Também a figura do silêncio ajuda na descrição da demência com a alusão a “epidemia silenciosa” da AD.


-Outras notícias, descrevem a demência como o “demónio do milénio” e a necessidade de uma “cruzada” para o superar. Aqui, a religião e a guerra andam de mãos dadas.


-Também foi vista como um monstro que invade e rouba as pessoas de si mesmas (a sua identidade).


-Compreender a demência torna-se possível, à luz de fenómenos naturais avassaladores como termos bíblicos ou mitológicos, alusão a zombies e a uma morte em vida. A linguagem militar também veio carregar as descrições de demência, com expressões como “luta”.


-Nos documentários televisivos, a demência seleciona e captura as situações mais extremadas às quais uma demência pode conduzir…comunicando-nos que a demência é como se fosse um fenómeno incontrolável que pode atingir qualquer um de nós e ao fazê-lo, o fará de forma extremada, deixando-nos com mais medo e com a forte sensação de impotência.


E será que demência é em si mesma uma metáfora?

Tendo sido expostos a um conjunto de exemplos que nos assinalam as metáforas relacionadas com a demência, faz sentido perguntar: será que a demência é em si, uma metáfora?


Como a demência tem vindo a ser associada a crise, guerra, desastre natural, morte, tornou-se também o sinónimo de calamidade. Então, quase que se pode dizer que a demência configura também, um poder metonímico na nossa linguagem. Sendo a metonímia, uma figura de estilo que faz com que um conceito seja substituído por outro que lhe é aproximado no sentido (um exemplo em grosso modo: “li Saramago” > “Saramago” substitui “um livro de”, exatamente por Saramago representar, entre outros significados, o autor de obras literárias).


E assim, a demência tornou-se a metonímia de “mundo complexo e desconhecido de desgraça, envelhecimento e destino piores que a morte”.


São identificados também, alguns filmes que integram pessoas que vivem com demência e analisada a forma como a mensagem passa para o espectador, apelando à sua reflexão ou distanciamento.


Uma análise destas descrições pode ajudar-nos:

1)A questionar os estereótipos dominantes sobre pessoas que vivem com demência, através, por exemplo, da visualização de filmes, romances, discursos, poemas.


2) Desenvolver outras atitudes, inversas às atitudes e práticas negativas comuns e aceites.

(É importante notar que as pessoas que vivem com demência, estão a ter mais voz, desafiando a associação persistente entre demência, declínio e queda).


3)Reconhecer que demência não é algo para ser encarado à distância. É uma parte de nós e que as nossas narrativas sobre demência e sobre aqueles que a vivem, revela o como nós realmente somos.


4)Demência deve ser compreendida como um fenómeno que é também fruto do contexto, como algo que evolui e que pode ser construído.


Palavras chave: Metáfora, demência, Doença de Alzheimer, envelhecimento, estereótipos, narrativas culturais, discurso, gerontologia crítica, aprendizagem, construção, atitudes, cuidadores, investigadores, instituições


Zeilig H. (2013) Dementia As a Cultural Metaphor. The Gerontologist 54 (2): 258–267. DOI: https://doi.org/10.1093/geront/gns203

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