Diálogo com Carolina Abrantes

Carolina Abrantes, atriz e palhaça

Menina Júlia, da Família Ri Alto – projeto artístico para idosos “A VISITA”

www.avisita.pt


Métis: A Menina Júlia faz parte de uma família em que todos nasceram com uma diferença abismal do comum dos mortais. Uma protuberância enorme e vermelha, a que chamam nariz. Como as diferenças aparentes e por vezes aquelas que não se percebem à vista desarmada, interferem para o bem ou mal numa interação/comunicação, como descreve a forma como tem sido recebida junto dos séniores que se encontram em instituições que cuidam?


Carolina Abrantes: O nariz que o palhaço utiliza, a chamada máscara mais pequena existente, é um dos seus elementos mais caracterizadores, mas está longe de ser o único. A forma como os palhaços comunicam, a sua fisicalidade e a forma como se apresentam são outras das características fundamentais.


Os palhaços de A VISITA usam figurinos e objectos que remetem para a primeira metade do séc. XX e fazem uso de ferramentas como a música ou a poesia, sendo promovida uma aproximação quase instantânea aos idosos, quer pela identificação de peças de roupa características dos seus anos de ouro, quer pelo reconhecimento de canções, lengalengas ou poemas populares portugueses, procurando favorecer a reminiscência, ‘viajando até ao seu tempo’.


Apresentam-se como uma família, a Família Ri Alto, com várias personagens com características individuais muito próprias e graus de parentesco entre si. Sendo que a família é algo familiar, facilita a apresentação de cada personagem, o enquadramento da relação entre os palhaços, e é sabido que a família é a visita preferida de todos os idosos.


As visitas da Família Ri Alto aos lares são periódicas, sempre realizadas no mesmo dia da semana e no mesmo horário, já que A VISITA é um projecto que implica regularidade, para que se gere uma partilha relacional, personalizada, a partir das interações fundadas na relação com cada idoso, num processo individualizado de continuidade e confiança. São criadas cenas artísticas a partir do improviso, tendo em conta as necessidades de cada idoso, havendo uma adequação constante ao seu estado anímico e de saúde, adaptando-se o nível de energia e o tipo de atuação.


Assim, o ambiente é adaptado a cada pessoa visitada, sala, quarto ou corredor, sendo sempre respeitados a sua singularidade e o seu estado cognitivo, físico e emocional. As interacções partem das memórias e experiências de cada um, para suscitar a partilha relacional, mas também emocional que os estimule e valorize as suas competências, particularidades e emoções. As visitas são feitas em dupla, o que permite ao idoso participar activamente ou ser apenas espectador, não se forçando nunca absolutamente nada. Estas interacções permitem melhorar o equilíbrio emocional, as relações interpessoais e a autoestima, retrair sentimentos de frustração, tédio e solidão, retardar o declínio sensorial e estimular a memória.


Ao palhaço, tudo é permitido e tudo é tolerado, por um lado porque comunica através do humor, por outro pela inocência que lhe é inerente, assumindo a sua criança interior, como se visse sempre o mundo pela primeira vez.


Todos estes elementos promovem uma real conexão com cada idoso, sendo sempre uma alegria quando a Família Ri Alto entra em cada lar e diferenciam a actuação dos palhaços junto dos idosos dos demais intervenientes do seu dia a dia.

Carolina Abrantes no papel de Menina Júlia Ri Alto: [em entrevista para a Emissora Nacional de Radiodifusão] É uma alegria quando nos vêem! Até se iluminam, parecem umas Nossas Senhoras daquelas que brilham no escuro! Adoram os laços que cuidadosamente utilizo no chapéu, na saia e nos sapatos. Às vezes, ofereço alguns. E as malas? Até mas roubam de inveja. Mas eu compreendo, vem tudo de Paris, como não adorar? Só quando temos os almoços de família não conseguimos fazer visitas, o que é uma tortura, mas assim que voltamos ficamos surdos com tantos ‘Onde é que vocês andaram? Ai que saudades! Ai que saudades! Onde é que vocês andaram?’, uma verdadeira lengalenga, outra tortura, mas das boas.

Métis: Pessoas que interagem com idosos que precisam de apoio, as que não nasceram com essa verrugazita vermelha, por vezes colocam a questão: “qual a linha, expressão, momento, emoção, dizer… que separa a necessidade de manifestação do humor, da do amor?”. Quando está em interação, nas visitas familiares aos idosos, esta dúvida também surge?


Carolina Abrantes: O palhaço é um ser que navega nas emoções, que vai de encontro ao humano através da inocência e do humor, quando não do amor. O riso e a espontaneidade que caracterizam a acção do palhaço potenciam a criação de um ambiente descontraído, alegre e leve, mas sobretudo emotivo.


Importa distinguir o palhaço visitador do palhaço tradicional, pois é desse palhaço que A VISITA se caracteriza. O palhaço visitador é uma especialidade que exige uma profunda capacidade de perceber o outro e o seu ambiente e de improvisar a partir disso. Este palhaço está para o que o outro precisa, focando-se no humano e no vital que há em cada encontro e não no aplauso da plateia. O seu foco está no visitado, na ligação com cada indivíduo, não existindo um espectáculo nem um grande público. O humor é a maior ferramenta, mas a preocupação não é exactamente o de fazer rir, mas o de suscitar emoções - um momento de cada vez, uma pessoa de cada vez, um coração de cada vez. E falar de coração, é falar de amor.


A VISITA traz à tona o carácter divertido de situações banais do quotidiano, recriando o espaço dos estabelecimentos, tornando-os momentos criativos e vivos, com um poder transformador, vital e divertido, aligeirando estados de ânimo, fazendo uma diferença real na vida das pessoas. Todos dependemos de Amor, e em particular o idoso, pela fase da vida em que se encontra. A VISITA recria, assim, um espaço de afectos, um espaço em que o amor se instala por si só, trazendo um novo significado ao seu quotidiano. As visitas não vivem da memória racional que delas fica, mas da memória emocional e física de um contacto humano e artístico que o palhaço tão bem consegue.

Carolina Abrantes no papel de Menina Júlia Ri Alto: Humor ou Amor? Mas não é a mesma coisa? E rima, já estou a pensar num poema… Batem leve, levemente/Como quem chama por mim/Será amor? Será humor?/Humor será, certamente/E o amor bate assim... [abraça carinhosamente um dos seus amigos séniores ao terminar a declamação.]

Métis: No seu papel de palhaça, Menina Júlia, qual o momento de interação que sensibilizou mais a Carolina Abrantes?


Carolina Abrantes: São muitos os momentos belos que acontecem nas nossas visitas aos lares e, por vezes, são pequenos, mas enormes: uma palavra proferida por um idoso que pouco fala, um levantar de um idoso que se habituou à cadeira de rodas para dançar ou estabelecer um contacto visual com um idoso com demência são feitos absolutamente extraordinários.


Partilho dois momentos:

1. Alecrim aos molhos: Uma das idosas com demência estava pouco interactiva, ainda que sempre atenta ao que fazíamos ou dizíamos. A dada altura pede para irmos embora… Despedimo-nos cantando a canção popular ‘Alecrim aos molhos’ e saímos do quarto. Uns segundos depois, ouve-se ‘Alecrim, alecrim aos molhos…’, e lá ficou ela a cantar.


2. Hóquei com bengalas: Estavam sentados vários idosos, como habitualmente, num dos espaços comuns. Aí, havia um cesto cheio de bengalas. Retirámos uma bengala para cada palhaço, virámo-las ao contrário e estavam instalados os tacos de hóquei. Faltava a bola, a auxiliar depressa se apressa a arranjar um novelo de lã. Começámos a jogar e os idosos observavam atentos. Depois, distribuímos bengalas a todos. Um idoso passou a bola a outro e depois a outro e depois a outro e golo (as cadeiras fazem óptimas balizas)! E recomeçava outro jogo.

Carolina Abrantes no papel de Menina Júlia Ri Alto: [reparando numa idosa de pantufas com pompom] Olha, uns coelhos, tão fofinhos! [prepara-se para fazer festinhas aos ‘coelhos’, a idosa entra no jogo e de cada vez que ela se aproxima, a idosa pontapeia como se os ‘coelhos’ quisessem morder] Mas que coelhos danados! Uma coisa tão felpudinha… (NOTA: Esta idosa está quase sempre sentada, pouco se movimenta.)

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