Diálogo com Dra. Rosa Maria Araújo


Dra. Rosa Maria Araújo

Assistente social

Presidente da Direção Nacional da Associação Coração Amarelo


Métis: As questões que adiantarei estão focadas na criação das condições necessárias para o afastamento da solidão e isolamento, da vida das pessoas de idade maior.

Como caracteriza, como define e como avalia os desafios resultantes da  Covid 19, na vida das pessoas idosas? Dra. Rosa Araújo: O essencial de vida de cada um, é sermos felizes em todas as idades. Os Pais dizem sempre que o que mais desejam, é que os filhos sejam felizes! No momento atual, o desafio lançado ás nossas vidas pela Covid 19 foi questionar o modo de viver, de comunicar e de amar e mesmo de olhar. Nesta sociedade, o grupo etário dos mais velhos foi mais exposto por ser o mais débil, frente a esta pandemia  e daí o terem-lhe retirado o contacto com os familiares, nas suas casas e também nos estabelecimentos residenciais (ERPIS). A falta do afeto e da comunicação é muito sentida em todas as idades mas, no fim da vida, é como uma morte anunciada! Cada idade necessita de cuidados, respostas adequadas e muita atenção e afeto! Cada pessoa, independentemente das circunstâncias, tem a sua identidade própria. E é um ser de direitos pessoais, sociais e políticos. As sociedades são constituídas por pessoas de todas as idades e cada uma delas, tem o seu lugar próprio, merecendo respostas adequadas ás suas verdadeiras necessidades e sentirem-se seguras. Nestes momentos de pandemia, verificámos que muitos desses “direitos” foram beliscados e quem mais sentiu, foram de facto os mais débeis, os mais velhos! Olhando noutra perspetiva, nunca se falou tanto das pessoas idosas e se questionou o isolamento a que foram confinados. Por outro lado, toda esta situação traz os desafios: 1- Incorporar o VOLUNTARIADO nas respostas sociais  como recurso complementar; 2- Visibilidade e atenção ás pessoas mais velhas; 3- Desenvolver uma cultura de proximidade; 4- Alargar as parcerias com vista ao “cuidar do outro”; 5- As Pessoas colocadas no centro das preocupações; 6- Todos unidos com saberes e potencialidades, para se construir um Mundo Novo. 7- Converter as boas intenções em resultados com perspetiva de futuro. Métis: Na sua perspetiva como podemos preparar-nos para que os desafios que identificou possam ser superados? Dra. Rosa Araújo: O envelhecimento é um fenómeno muito conhecido nos seus mecanismos e contornos , mas mal compreendido nas suas características sociais! A sociedade cada vez mais envelhecida, com o notório agravamento das condições de vida, põe em causa a sobrevivência de muitos, retirando-lhes a possibilidade de um fim de vida com qualidade. A configuração demográfica , aliada ás alterações da organização social e familiar, leva ao afastamento dos mais velhos, isolando-os. Todos sabemos que cada vez mais se verifica o abandono e a negligência relativamente aos mais velhos por parte dos filhos e familiares diretos. Apesar do esforço da sociedade civil organizada, bem como do suporte do próprio Estado, as famílias têm vindo a demitir-se do seu papel, colocando o afeto e o respeito para último plano. O abandono começa por um distanciamento  crescente, intervalado com telefonemas que escasseiam ou visitas que se adiam. Esta questão,  deverá ser entendida como um grave problema social! Daí a necessidade de se criarem redes sociais de proximidade, articulando várias entidades intervenientes (IPSS, Voluntários, PSP, GNR, Bombeiros, Igreja, Centros de Saúde...etc) A gravidade da atual situação veio reclamar este tipo de intervenções e para que os desafios sejam superados há que aproveitar as sinergias conseguidas e mantê-las vivas nos territórios: 1- Olhar as pessoas idosas como um grupo de pessoas que têm que ser cuidadas e apoiadas com pessoal mais qualificado. A formação dos cuidadores (formais e informais) é um imperativo inadiável, exigindo qualificação e criando carreiras próprias com especialização e constituição de carreiras com a respetiva avaliação e supervisão. Porque só se exige para o pessoal que cuida de crianças? 2- Fortalecer a rede de Cuidados Continuados e Apoio Domiciliário, como respostas de primeira prioridade e de excelência que exigem muito profissionalismo e aumento de capacidade; 3- Lutar contra os Lares clandestinos , exigindo o cumprimento das regras e normas e proceder ao seu encerramento com sanções previstas na Lei; 4- Mais informação sobre os direitos das pessoas, criando locais de informação ao nível das Juntas de Freguesia! 5- Dar voz aos mais velhos! 6- Valorizar as pessoas mais velhas através da educação, desde o jardim de infância e prolongando-se por todos os níveis de ensino; 7- Auscultar a opinião dos mais velhos sobre as respostas que lhes dizem respeito. 8- Criar comunidades amigas das PESSOAS;

Termino com a mensagem de um homem que foi dirigente da ONU , Kofi Annan : “As famílias são fundamentais para socializar e educar as gerações jovens e para prestar cuidados e apoio ás gerações idosas (...) devemos basear-nos na ideia  de que a sabedoria e a experiência das pessoas idosas são realmente vitais tanto para as famílias, como para as sociedades. Os idosos são o elo de ligação entre o passado, o presente do futuro!”


Métis: Quais as grandes ameaças á realização dessa superação e também quais as grandes esperanças para a sua concretização? Dra. Rosa Araújo: A ameaça fundamental a todas as realizações possíveis e concretização dos desafios apresentados, está nas PESSOAS. Principalmente as que têm o poder de decisão e responsabilidade na definição de políticas. Infelizmente  verificamos que muitos dos decisores, a todos os níveis , não possuem sensibilidade e o conhecimento adequados e exigidos para o trabalho que desenvolvem e ou para o cargo que ocupam. É do meu ponto de vista ao nível local que Autarquias e Juntas de Freguesia, poderão fazer a diferença na concretização de políticas sociais adequadas ás verdadeiras necessidades das pessoas, em parceria com as diferentes entidades. Temos exemplos de excelência! É sem duvida nos territórios que que se operam as mudanças. Tenho esperanças no futuro, com o contributo de todos. A mudança está aí! Que apostas, afinal? 1- A criação de comissões de proteção de pessoas idosas!; 2- O reconhecimento e apoio ás Academias da terceira idade, como centros culturais para aquisição do conhecimento e locais de sensibilização; 3- Abertura e apoio á construção de novos modelos de equipamentos residenciais (ERPIS) com respostas inovadoras e mais dinâmicas. Mais adequadas á heterogeneidade das pessoas idosas, considerando os diferentes níveis de aspiração e diferentes graus de mobilidade. Fica a esperança de uma sociedade mais solidária! “A melhor maneira de prever o futuro é criá-lo!”, expressão de Peter Drucker



  • Facebook
  • Preto Ícone Instagram
  • Preto Ícone LinkedIn
  • YouTube