Pecado do “carinho que não mata, mas moi” / virtude do “estímulo à autonomia possível”

Atualizado: Mai 26


Há uns bons anos atrás, passeava num terreno incerto com uma amiga, na altura com 86 anos. Em determinado momento, sinto que um dos seus sapatos escorrega na gravilha. O meu reflexo foi agarrar-lhe o braço com firmeza. A resposta que obtive foi: - Leonor, o amor também mata!


Não me quero prender ao evento da escorregadela. Por pequena que fosse, poderia ter um resultado inesperadamente negativo. Mas quero refletir sobre aquilo que ouvi e gravei na minha memória de cuidado.


Percebi que entendeu o meu reflexo, como amor. E fiquei satisfeita por isso. Mas também sentiu que este amor, limitou as suas próprias defesas, aquelas que, mesmo com um andar mais titubeante que no passado, ainda persistem e não devem ser abafadas, antes porém, ativadas.


Isto levou-me ao mundo das palavras proferidas quando cuidamos. Recordei quantas expressões utilizamos com as pessoas mais velhas que, sem querer, têm o dom de as diminuir. Têm o dom de travar as suas vontades e autonomia e desta forma dificultar o seu processo de desenvolvimento. Sim, disse desenvolvimento. Acredito firmemente que nos desenvolvemos até ao fim das nossas vidas.


O ato de cuidar é preenchido por palavras e ação. É de fulcral importância alinhar um com o outro quando cuidamos de alguém de maior de idade. Para o uso das palavras, precisamos de aceder às nossas crenças sobre o que é ser mais velho e viver dependência. Acreditamos que é alguém com uma história de vida brutal pois tem 92 anos e pode, deve e tem o direito de participar na sua vida e na dos outros (crença 1)? Ou, acreditamos que voltou a ser uma criança cujo conteúdo se está a processar pois tudo está para ser apreendido e precisa da nossa total orientação (crença 2)?


Acreditar numa coisa ou noutra tem representações muito concretas nas expressões que emitimos e nos significados que atribuímos às expressões proferidas pelo idoso que vive com dependência e que nos chegam aos ouvidos.


Com boas intenções, o nosso amor associado à segunda crença, vai conduzir-nos a chamar o idoso de “avozinho”, “Dona Mariazinha”, “hoje está maroto”, “ontem esteve muito reguila”, “que teimosa”, “não pode fazer assim” …e o que vamos ter como troco? Mais apelos e resistências por parte da pessoa que é cuidada. Mais dificuldade em cuidar. Se as dificuldades forem mantidas ao longo do tempo, vivemos stress e se assim continuar, podemos chegar à exaustão (não só por factos de comunicação, mas também). Com amor não matamos como dizia a minha amiga, mas moemos a saúde dos dois lados da relação de cuidar.


Assim, se no meio está a virtude, se na relação está a chave da comunicação no encontro de cuidado, será importante reconhecer que o idoso de quem cuidamos faz parte de uma relação de equipa e que pode e deve participar na medida das suas possibilidades. Com amor, estimulamo-lo a ser aquilo que é e/ou pode vir a ser.

Esta é uma outra das viagens admiráveis de quem cuida: transformar a forma de afeto para a dependência em afeto para a autonomia.

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