Pecado “não escutar”/ Virtude “escutar”

Atualizado: Mai 26


O envelhecimento como é nos nossos dias e no mundo ocidental, apresenta desafios novos. Nunca uma pessoa que cuida, cuidou durante tanto tempo dos mesmos idosos com dependências severas relacionadas com o desenvolvimento de doenças neurodegenerativas, mobilidade dificultada, abandono crónico, solidão e isolamentos crónicos.


Por vezes damo-nos conta que ao interagir com estes idosos com envelhecimentos tão difíceis, nos é impossível reverter tudo o que para nós é mau e transformar em bom.

Das queixas que ouvimos, das conversas que para nós, não têm sentido algum porque não são a nossa realidade, do foco que colocam no “negativo”…surgem desafios de comunicação para os quais muitas vezes não estamos preparados.


E não estamos preparados porque acreditamos em dois extremos que não são humanos. Um deles é o de que posso fazer feliz aquela pessoa através das minhas próprias sugestões, construídas através da minha própria experiência. O outro é o de que não vale a pena fazer muito para além da satisfação das necessidades básicas porque aquela pessoa já não desenvolve.


Como sempre, a virtude está no meio. Nem eu tenho o dom divino de dar felicidade ao outro, nem tenho o dom diabólico de o deixar com necessidades humanas para além das básicas, insatisfeitas. Entre deus e o diabo, estamos todos nós. Humanos. Com uma imensa capacidade de escuta se assim o decidirmos. Com uma imensa capacidade de calar e silenciar, deixando quem está a tentar fazer a ponte com o exterior, fazê-la e com a nossa ajuda, estimular esse processo. Com imensa capacidade de fazer com que o grito do envelhecimento doloroso, possa ser expresso e que por isso mesmo, sendo expresso, reduza a intensidade dentro de quem está a lutar com uma aprendizagem difícil todos os dias. A aprendizagem de saber lidar com uma cabeça e corpo que não correspondem diretamente a uma vontade. Onde a perceção do controlo da própria vida se vai esvaindo. Nada é como no passado.


Nestas circunstâncias e investindo não só no idoso em vulnerabilidade, nem somente em nós como agentes de interação e/ou cuidados, mais uma vez, podemos apostar na virtude do meio: o foco na relação.


Mas para esta relação existir, faz sentido apurar a escuta. Ouvir a Sra. Marta (pessoa real com nome fictício), cega pelo desenvolvimento de uma diabetes não controlada, dificuldade em andar em redor e confinada bem antes da Covid 19 …dizia eu, ouvi-la quando diz: “Aqui já não há amor”. A estas palavras que podem ser outras na expressão das imensas mulheres e homens com idades provectas e a viver dependência, surge de imediato a resposta pronta: “Gostamos muito de si, não diga isso”; “Temos outras coisas para fazer, mas a Sra. Marta é muito especial para nós”; “Oh mãe, hoje está muito deprimida, não a quero assim”. Se tivéssemos de transformar esta conversa em laranjas e batatas, a Sra Marta abordava laranjas e o interator abordava batatas. Ora bolas! Assim, não há relação que aguente! A Sra. Marta ficou sozinha na sua tentativa de fazer a ponte com o mundo exterior que já não percorre. O interator ficou sozinho na crença de que apaziguou (silenciou) a dor do outro, neste caso, Marta.


Assim, se no meio está a virtude, se na relação está a chave da comunicação no encontro de cuidado, será importante escutar e não tanto sugerir. Agarrar nas laranjas e descascá-las, espremê-las e ver se em conjunto se encontra a vitamina…deixando as batatas para outro dia!


Esta é umas das viagens admiráveis de quem cuida: transformar as suas sugestões/afirmações, em perguntas cujas respostas são escutadas.


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